
Imagem mostra teju comendo filhote de tartaruga em praia de Fernando de Noronha
Para fazer esse registro, foram utilizadas câmaras chamadas de trap, que também fotografam e filmam de forma automática. Nesta temporada, os equipamentos foram instalados nas praias do Parque Nacional Marinho em abril.
Segundo o oceanógrafo Tunan Tomé, que atua como voluntário nas duas instituições, interações dos tejus com os ninhos de tartarugas são registradas diariamente. Em três vezes, foi possível comprovar que o teju se alimenta dos filhotes.
“Nós armamos a câmera, geralmente no final da tarde, e existe um sensor. Com o movimento, o equipamento dispara e faz o registro, inclusive no período noturno. No dia seguinte, nós avaliamos o material capturado”, explicou Tomé.
A tartaruga-verde, que tem nome científico Chelonia mydas, é a única espécie que se reproduz em Fernando de Noronha. O pesquisador explicou por que a predação não é constante.
“O teju ainda não consegue cavar o buraco inteiro e chegar na profundidade dos filhotes. O teju é oportunista, espera as tartarugas saírem do ninho”, afirmou Tomé.
O oceanógrafo Cláudio Bellini, do Centro Tamar, disse que as armadilhas fotográficas mostraram grande potencial para compreender as relações ecológicas em praias de desova de tartarugas marinhas e o comportamento dos predadores.
“Foi observada a intensa atividade de teju (Salvator merianae), espécie exótica invasora em Noronha, ao redor dos ninhos em todos os pontos, o que inclui, além das imagens, a observação dos rastros nas praias. Por terem hábitos necrófagos [animais que se alimentam de restos orgânicos], eles são atraídos por ovos e filhotes em estado de putrefação”, disse Bellini.
Tejus
Pesquisadores indicam que o teju, ou teiú, é o maior lagarto das Américas e pode ser encontrado no Brasil todo. Apesar de estar incluído na convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Silvestres Ameaçadas de Extinção (Cites) devido à caça predatória, ele é considerado um predador oportunista com enorme capacidade adaptativa.
Em locais onde são introduzidos, os tejus atuam como espécie invasora e causam desequilíbrio ecológico. De acordo com o veterinário Paulo Rogério Mangini, do Instituto Tríade, o teju come, além das tartarugas, ovos de aves, mabuyas (lagartixa local), caranguejos, entre outras espécies.
Estudiosos indicam que o teju foi introduzido, provavelmente, no início do século 19 e, em 1950, já havia relato da presença do animal na ilha.
Atualmente é realizado o controle da população de tejus em Fernando de Noronha pelo Programa de Manejo de Exóticas e Invasoras do ICMBio. Esse animal representa uma ameaça para as espécies nativas ou endêmicas, incluindo espécies ameaçadas de extinção.
“A predação dos ninhos é um dos impactos causados pela população invasora de teju em Noronha. Isso reforça a importância do manejo que é realizado e o objetivo é a erradicação da espécie. O monitoramento é uma ferramenta importante para avaliação dos resultados para a conservação”, disse Bellini.
Tunan Tomé reforçou a necessidade de parcerias para o manejo dos tejus. “É importante que parcerias sejam feitas para apoio ao manejo de espécies invasoras. Esse trabalho tem um custo alto, e o ICMBio precisa de financiamento para aquisição de armadilhas e pessoal especializado para ampliar as ações nessa área”, contou.

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